O uso de games digitais na educação é recorrentemente relacionado como uma possibilidade para o engajamento e desenvolvimento de habilidades, além da articulação e produção de saberes. Esta é uma grande mudança na reputação dos videogames, que já foram tratados como vilões da aprendizagem num passado não muito distante. O que mudou? A indústria, as tecnologias e o mercado consumidor dos videogames nas suas diversas plataformas se transformaram bastante, os estudos dos jogos como objetos complexos e cheios de potencial passaram a ser cada vez mais comuns, as perspectivas da educação na Era Digital foram identificando usos surpreendentes e inovadores para os meios lúdicos como ferramentas de aprendizagem e até mesmo o acesso e uso de ferramentas de desenvolvimento passaram a ser mais viáveis. Todos estes aspectos do cenário de redenção dos videogames são importantíssimos, mas vou me ater sobretudo ao último deles.

Desenvolver um jogo digital – pelo menos para mim – parecia ser uma tarefa só para aquele pessoal descolado imerso no universo da indústria gamer que manjava dos mistérios da programação. Sim, claro, essas pessoas fantásticas e inventivas realmente produzem games e atuam mesmo no mercado, merecem o elogio que a game designer Jane McGonigal fez ao chamá-los de “engenheiros da felicidade”, mas nós, que não estamos no cotidiano dos estúdios de desenvolvimento de jogos já podemos também realizar projetos conforme nossas próprias condições e com objetivos pedagógicos. Há ferramentas disponíveis para isso. 

Mas não é comum que professores da educação básica saibam programar, então como podem desenvolver jogos? Como alguém que também não é programador – e que só agora por iniciativa própria resolveu estudar o basiquinho de Python – acabei sendo apresentado a possibilidades para a produção de jogos sem o domínio técnico dos mistérios das linguagens de programação. 

Então o desenvolvimento de jogos por “não-programadores” pode ocorrer com o uso de ferramentas que exploram a elaboração através de programação em blocos ou de programação visual. 

No caso da programação por blocos, o desenvolvedor vai compondo os comandos encaixando as funções já disponíveis no programa, alterando os valores especificados para cada operação. Este tipo de desenvolvimento ficou popular com o Scratch, que é uma ferramenta inicialmente produzida para ensinar programação para crianças, mas adultos que querem dar os primeiros passos não se sintam ofendidos ao lidar com um programa no qual fazer um gatinho se mover num cenário é um dos primeiros desafios… eu mesmo não sabia fazer o tal bichano andar até tentar aprender. 

Interface do Scratch
Blocos de programação do Scratch

Além do Scratch, uma ferramenta mais elaborada e especificamente produzida para o desenvolvimento de jogos é o Stencyl, que também utiliza programação em blocos. Com o Stencyl já é possível fazer jogos em 2D bem mais refinados, pois ele tem várias aplicações avançadas para os objetos utilizados nos jogos, que podem ser gerados para diversos formatos, inclusive para dispositivos móveis. O problema do Stencyl é a lentidão no processo de renderização (que é reunir e transformar toda a operação e arquivos no jogo jogo finalizado), mas como experiência de aprendizagem no desenvolvimento vale muito a pena conhecer e testar esse software que mesmo em sua versão gratuita já apresenta basicamente todas as suas funcionalidades e recursos disponíveis.

Interface do Stencyl

O Gamefroot foi também desenvolvido para usuários mirins, mas crianças adultas podem usar. Funciona online diretamente no navegador, dispensando instalação. Explora o desenvolvimento de jogos posicionando os elementos visuais na tela e atribuindo a eles as características, mas com a oportunidade de converter esta intervenção em linguagem visual. Ele já tem pré-definições que podem ser utilizadas para iniciar os projetos, além de um conjunto de sprites prontos, embora seja possível acrescentar seus próprios arquivos visuais para personalizar seu jogo.

Interface do Gamefroot

A programação visual funciona como uma tela em branco que será progressivamente composta pelos elementos que vamos adicionar a ela para então atribuir a eles suas características e funções. Uma ferramenta de desenvolvimento de games que funciona segundo esta operação é o Construct, que é bastante versátil e capaz de render excelentes jogos em 2D. Outra vantagem é a facilidade de aprender a lidar com ele e suas inúmeras operações. Ele também tem um prático editor de imagem integrado, o que facilita ainda mais o uso sem a necessidade de trabalhar com com outros softwares abertos e consumindo memória de seu computador ao mesmo tempo. Sua versão gratuita também é completa em termos de funcionalidades. Atualmente é o programa que está sendo utilizado nos projetos de desenvolvimento de jogos com os alunos na escola onde atuo – o que será tratado em outra publicação aqui mesmo um dia. 

Interface do Construct 2

Claro, há game engines muito mais avançadas disponíveis por aí a exemplo do famoso Unity ou do alternativo e leve Godot, mas estes dois precisam de uma base de linguagem de programação que pode assustar quem está especulando uma incursão no universo do desenvolvimento de games ainda sem saber programar.

Aqui há um conjunto de 10 aulas práticas de Construct 2 produzidas pelo canal Polar Games. Vale a pena acompanhar e começar a produzir.