Na literatura e no teatro da Grécia Antiga costumava-se recorrer a um recurso que acabava solucionando milagrosamente as tramas quando a situação estava crítica no clímax das narrativas. Praticamente do nada ou do além despontava algum elemento surpreendente na forma de personagem ou situação que daria um jeito na complicação e encerraria a estória sem deixar conflitos pendentes e estabelecendo desfechos definitivos. Uma vez que tais narrativas eram adaptadas para os palcos, precisavam contar com uma performance cênica capaz de maravilhar o público e representar a aparição ou circunstância definidora e extraordinária presente no texto. Então apelavam para efeitos especiais que utilizavam mecanismos ocultos, roldanas, polias, guinchos e guindastes produzindo efeitos de levitação e elevação dos atores que entravam em cena de forma espetacular enquanto interpretavam as divindades que estabeleciam os encerramentos das tramas. Foi por essa razão que o este recurso cênico espetacular passou a ser conhecido por Deus ex machina (que por sua vez já é uma expressão latina que significa algo como “Deus através da máquina”). A expressão acabou recebendo posteriormente o uso genérico como um meio de estabelecer uma solução apelativa quer geralmente é repentina e frequentemente de forma forçada para solucionar uma situação complicada num contexto narrativo. Diante de algum desdobramento para o qual não restaria uma saída simples e rápida e evitado um encaminhamento que custasse muito a ser desenvolvido e explicado, lança-se logo mão do elemento extraordinário e pronto, problema resolvido. Simples assim.

De certa forma é exatamente isso que muitos esperam da tecnologia. No cenário educacional, desde os tempos das aparelhagens transistorizadas já eram criadas expectativas de que a tecnologia pudesse resolver de vez certos problemas crônicos e na Era Digital não tem sido diferente. Não há como esperar que uma entidade digital desponte na cena, aponte magicamente para algum gargalo crítico e torne extintas suas dificuldades, efeitos e causas. 

Um exemplo notório de uma aposta tecnológica que não deu muito certo ou que acabou sendo decepcionante é o caso das lousas digitais interativas (tecnologia originalmente identificada principalmente como interactive whiteboard ou simplesmente IWB) que começaram a se popularizar a partir do início dos anos 2000. Pensadas como dispositivos capazes de integrar textos, processamentos matemáticos e recursos multimídia de maneira dinâmica e versátil, as telas viraram uma espécie de fetiche tecnológico que de cara despertaram muito interesse porque prometiam se transformar numa ferramenta indispensável nas escolas. A Futuresource Consulting estimou em 2012 (ano em que os IWBs tiveram seu seu boom de sucesso e implantação) que os dispositivos estavam presentes em 45% das salas de aula dos EUA, 37% do Canadá e incríveis 90% do Reino Unido, então como algo assim poderia dar errado?

O premiado e atuante professor de ensino médio, autor e blogueiro norte-americano Josh Stumpenhost caçoa dessas milagrosas ferramentas digitais mesmo sendo um inovador e entusiasta das tecnologias, dizendo que uma IWB “nada mais é do que uma glorificada tela dobrável de projeção de slides“, embora procure salientar que esta subutilização não é propriamente culpa da tecnologia e sim dos responsáveis pela gestão das redes educacionais e de suas instâncias administrativas que tomam decisões sem saberem o que se passa numa sala de aula e sem dialogar com os professores. A opinião de Stumpenhost confirma que a implantação realizada de forma generalizada das IWBs (ou de qualquer outro aparato tecnológico didático, vale ressaltar) não resulta necessariamente em sua implementação prática, pois são os professores quem decidem no final das contas quais os recursos que lhes parecem mais convenientes ou que atendem melhor suas necessidades e muitos simplesmente acharam que os quadros tecnológicos não faziam isso.

Estudante diante da imagem projetada utilizando o IWB durante a aula (magem: emergingedtech.com)

Estudos mais minuciosos sobre esta tecnologia digital indicaram que a utilização das IWBs precisavam de planejamentos e treinamentos por parte dos professores para potencializar e tornar eficiente o uso delas, porém, mesmo assim, sem garantir impactos significativos nos desempenhos dos alunos mesmo nos casos de usos mais satisfatórios dos dispositivos. Outras controvérsias envolvendos as lousas interativas salientam que elas, apesar de serem modernas, são centradas nos professores como usuários principais e alunos só acessam o dispositivo através de revezamentos idênticos à dinâmica tradicional de serem chamados ao quadro para preencher algo previamente planejado pelos professores, então as lousas digitais dão na maioria dos caso em que são utilizadas novos ares tecnológicos a um modelo expositivo de aula que não é certamente inovador, sendo assim, as telas interativas acabam não promovendo interatividade e muitos relatos indicam que logo deixavam de atrair a atenção e interesse dos estudantes. Nos EUA e no Reino Unido as IWBs chegaram a virar um fenômeno de investimento educacional feito pelos governos sob expectativas de que a aquisição e implantação dos equipamentos resultariam em melhoria dos índices de desempenho escolar e também promoveriam a percepção de que estavam sendo proporcionadas nos países a oferta de uma “educação do século 21”, pretensão que facilmente seduziu interesses e discursos de políticos e ajudou a abrir os cofres para bancar as novidades. Atualmente não faltam lamentos sobre a experiência frustrante com as telas interativas e até o ministro britânico da educação, Damian Hinds, admitiu em um artigo de 2018 no jornal The Telegraph que aparelhar as escolas com os dispositivos acabou sendo um grande desperdício de verba pública, além de uma decisão inadequada porque não contou com o apoio dos professores, justificando que na ocasião o lobby da indústria tecnológica pode ter exercido forte influência sobre a decisão, além do fato de que os gestores da educação nacional na ocasião estavam confusos entre tecnologias efetivas e modismos. O Reino Unido, segundo conclusão de um estudo da Universidade de Cambridge, fez uma introdução dos IWBs nas salas de aula em velocidade e intensidade sem comparação com qualquer outro lugar do mundo e Hinds considera que este foi um grande erro porque além do custo houve uma desconsideração sobre as necessidades das escolas em seu conjunto. 

O Brasil experimentou um pouco desse desperdício também. Somente em 2012 foi licitada pelo Ministério da Educação a aquisição de 100 mil unidades de um kit identificado como “solução de lousa digital” e outras 100 mil unidades de um equipamento qualificado como “computador interativo” que foram distribuídos para escolas pelo território nacional. Em ambos os casos a operação “interativa” dos equipamentos era na verdade uma reprodução do funcionamento do mouse do computador através de um apontador infravermelho que era utilizado diretamente na projeção que era feita a partir de  datashow comum que por sua vez estava conectado a um computador. Não eram nenhum equipamento daqueles com uma grande tela com uma membrana sensível ao toque e movimento dos dedos em contato com sua superfície possibilitando uma mais dinâmica experiência de interação dos professores com o conteúdo digital, sendo uma atuação mais limitada da relação computador-projetor-tela.

Eu testemunhei um pouco da breve euforia em torno das lousas digitais por aqui e até resolvi aderir também, mas na falta de um modelo sofisticado e mesmo de algum dos equipamentos distribuídos pelo MEC ou pela secretaria estadual de educação – a escola onde eu lecionava não recebeu – decidi experimentar minha própria ferramenta interativa recorrendo a um sistema adaptado que foi inventado em 2007 pelo engenheiro chinês Johnny Chung Lee e que empregava um ponteiro infravermelho improvisado e um controle de videogame Nintendo Wii (exagerado, eu chegava a usar dois controles ao mesmo tempo para favorecer a precisão) que juntos ao computador, ao projetor e utilizando um software pirata de um determinado modelo de tela interativa faziam com que eu pudesse utilizar esta tecnologia didática em minhas aulas com um mínimo de investimento e certamente com um custo muito mais baixo do que a tal “solução de lousa digital” do MEC (que foi licitada em 2012 por R$ 428,70 cada unidade enquanto a versão improvisada custava coisa de 30% desse valor, segundo registros do FNDE). Parecia tudo bem, mas a prática mostrou que no final das contas não era compensador. Era um porre a preparação da sala para utilizar o arremedo de IWB que me fazia adicionar mais dispositivos na aula e exigia ainda testes de um bom posicionamento dos controles no ambiente… E ai de quem encostasse neles e acabasse com assim estragando a calibração da área de tela sobre a qual funcionaria o ponteiro! Meu gosto por novidades me fez tentar a parafernália apenas por tempo suficiente para concluir o óbvio: era muito trabalho para fazer com que o mouse funcionasse no quadro branco da sala de aula sobre a imagem do computador que era projetada, sendo também evidente a constatação de que a melhor e mais prática maneira de utilizar um mouse é utilizar o próprio mouse sem toda essa intervenção de aparelhos adicionais. Rabiscar digitalmente com o ponteiro em forma de caneta na área delimitada do quadro para o funcionamento “interativo” também era uma atribuição insuficiente para justificar o esforço de lidar com o recurso cotidianamente e mesmo o manuseio de softwares interessantes dispensava tanta afetação tecnológica. Os alunos até chegavam ficavam inicialmente espantados com a novidade, mas fora esse impacto que não durava muito ela não aperfeiçoava nem a aula nem a aprendizagem.  

As telas interativas representaram uma proposta de inovação que não progrediu mesmo que governos a exemplo do britânico tenham visto nelas este potencial transformador ao ponto de realizar investimentos muito elevados adquirindo várias e tentado difundir esta tecnologia sem que os professores fizessem parte desses planos. Neste caso a aparição extraordinária da tecnologia não indicou nenhum grande avanço nem solucionou problemas insistentes. Certamente usos criativos e produtivos das telas existiram em vários casos, mas no cenário mais abrangente o crescente desuso das IWBs demonstrou que não foi através delas que a intervenção milagrosa aconteceu. 

Para a professora Martha Gabriel as tecnologias possuem a condição simultânea de serem bênçãos e fardos. Elas promovem aperfeiçoamentos naquilo em que são aplicadas, mas exigem de quem as utiliza uma necessária atenção aos seus limites e possibilidades. No caso das tecnologias na educação isso também é visível porque elas podem ajudar ou atrapalhar dependendo de como são implementadas, afinal, “a sua mera presença em si não é uma vantagem, mas seu uso apropriado o é”. 

Vários recursos aparecerão ainda reivindicando o papel de intervenção milagrosa para proporcionar um incremento educacional revolucionário. 


GABRIEL, Martha. Educ@r: A (r)evolução digital na educação. São Paulo: Saraiva, 2013.

STUMPENHORST, Josh. A nova revolução do professor: Práticas pedagógicas para uma nova geração de alunos. Petrópolis, RJ: Vozes, 2018.