A produção dos jogos digitais atingiu um nível refinado, com complexas composições de códigos, recursos visuais cada vez mais aprimorados, ótimos trabalhos sonoros, mecânicas e jogabilidade variadas em projetos criativos, exigindo ainda mais capacidade de performance dos computadores. A bilionária indústria de jogos digitais é um campo altamente especializado, onde atuam profissionais dotados de habilidades, conhecimentos técnicos e talentos aproveitados pelas empresas ou que atuam mesmo no também diversificado segmento “indie”. 

E em meio a este universo tecnológico rico e especializado existem também os desenvolvedores amadores que realizam suas próprias criações na forma intervenções sobre os jogos produzidos pelos estúdios e consagrados pelo mercado. O “modding” é a atividade que estes jogadores mais envolvidos realizam de criar alterações nos jogos, corrigindo falhas que identificam, incrementando e personalizando aspectos através da elaboração de elementos visuais de cenários e sprites adicionais, acréscimo de personagens manipuláveis e  NPCs (Non-player character), além de alteração dos contextos ou até dando sentidos diferentes para as propostas originais, incluindo os mods que alteram regras para burlar limitações. A abrangência das modificações pode ser bastante variada, atingindo aspectos muito específicos ou modificando coisas em grande escala, dependendo da proposta – e há oferta para todos os gostos.

O modding também tem um efeito interessante sobre o emprego dos jogos como ferramentas de aprendizagem. Primeiramente a operação de modificação já é um importante processo de aprendizagem de programação e desenvolvimento de jogos, sendo um método bastante utilizados em cursos ou em formações iniciais para novos programadores e designers. Esta espécie “engenharia reversa” dos jogos permite ao “modder” (aquele que praticam o modding e produz “mods”, “patches” e “hacks”) identificar aspectos técnicos e funcionais da estrutura dos softwares, mas também já é possível investir esforços nessa atividade sem o domínio de conhecimentos mais elevados dos mistérios da computação, pois até existem ferramentas que as próprias empresas desenvolvedoras produzem para facilitar as atividades dos voluntariosos modders e tornar mais acessível a geração de modificações que também ajudam a promover os jogos e dar a eles maior repercussão e relevância entre os jogadores. A própria instalação dos arquivos de modificação é muitas vezes uma operação muito simples, bastando na maioria dos caso copiar o arquivo numa pasta do jogo sem maiores problemas de ativação, uma vez que tais arquivos são assimilados pelo programa e reconhecidos por ele. 

Uma importante característica do modding é seu caráter coletivo, pois geralmente as produções acabam sendo compartilhadas com a comunidade de jogadores, que podem apreciar, testar e sugerir aperfeiçoamentos – claro, podem renegar também. A proliferação de downloads de um arquivos de modificação é a consagração de seu criador, sobretudo quando torna-se um item altamente reconhecido e utilizado pelos jogadores. 

Estudiosos do modding como atividade mobilizadora de aprendizados associam a prática a um importante aspecto da visão educacional construtivista, pois a realização das modificações de um jogo representam uma experiência viva para a consolidação de aprendizados significativos, uma vez que ao produzir a modificação o seu realizador terá empreendido um esforço criativo através do qual ele descobre coisas novas, aprimora suas habilidades e gera algo que terá para ele um forte significado pessoal impregnado de aprendizados. Para realizar sua alteração no jogo, o modder precisa aprofundar seus saberes sobre o que está modificando e vai apropriar mais conhecimentos no decorrer do processo. O mod, portanto, é uma (re)criação que emana aprendizado. 

Como o destino dos modificadores é acabar sendo utilizado para adicionar, personalizar ou alterar a experiência dos jogadores, muitas vezes acabam sendo também aproveitados para aprimorar a possibilidade de ensinar ou aprender coisas jogando. A série Civilization, por exemplo, possui uma farta oferta de modificações criadas por jogadores e também por professores que investiram na ideia de utilizar a base do jogo para adicionar modificações úteis para seus projetos didáticos. Há conjuntos inteiros de mods que colocam no jogo cenários, sprites e contextos que não faziam parte de sua base, a exemplo do que se pode encontrar nos vários sites e fóruns virtuais dedicados exclusiva ou em grande parte a esta conhecida série de “jogos históricos”. A bonita e sofisticada adaptação CIV IV: Medieval Russia é um conjunto criado por jogadores experientes e conhecedores da história adaptada e dos processos de desenvolvimento de mods para o jogo que representa muito bem este tipo de trabalho de adaptação capaz de promover uma rica possibilidade de aprendizado sobre o contexto explorado e também podemos citar o exemplo do conjunto American Revolution Mod também desenvolvido para o Civilization IV e que já rendeu experimentos escolares relevantes e estudos sobre o uso de games para o ensino de história. A revolução Americana é um tema recorrente nesse campo de produção lúdica, pois há diversos conjuntos de mods para mais jogos inspirados no contexto, incluindo até mesmo o Minecraft, além de outros jogos de encenações bélicas como a Série Total War, que, por sua vez,  também gerou um grande e apaixonado esforço colaborativo para a criação de muitos mods de inspirações históricas que incorporaram ao jogo um fascinante acervo de elementos que certamente exigiram bastante pesquisa em seu processo de criação por parte de seus desenvolvedores – no site Total War Center há inúmeras postagens contendo mods criados por jogadores.   

Unidades militares egípcias no Rome Total War incluídas por um mod

Minha preferência em termos de modificação é justamente aqueles que mais utilizo como jogador: arquivos para jogos de simulação de cidades. Ainda quando jogava por horas e horas o SimCity 4 não deixava de me atualizar sobre os mods e patches (que corrigem ou aperfeiçoam algum aspecto do jogo) e baixava tudo o que achava interessante, enchia a pasta de arquivos até ficar impraticável jogar porque levava muito tempo para que o jogo pudesse concluir a inicialização porque estava extremamente carregado com incontáveis arquivos que eu baixava no Simtropolis. Cheguei a desenvolver um projeto pedagógico com o SimCity uns 10 anos atrás com o objetivo de recriar no jogo uma versão de Recife, mas infelizmente naquela ocasião eram proibitivas as condições de trabalho e percepção pedagógica da escola a respeito de trabalhos como esse. Mas ainda hoje, quando jogo o Cities XL e fico vagando pelas páginas de downloads de mods do site XL Nation, não deixo de considerar o potencial didático que pode ser proporcionado pela produção de mods personalizados dos edifícios, monumentos e mapas topográficos de nossas cidades para envolver e mobilizar estudantes num audacioso processo de exploração, criação e aprendizado. Isso envolveria não apenas o manejo das ferramentas de desenvolvimento e dos seus requisitos necessários de design para esta produção visual, mas também uma mobilização de pesquisa sobre arquitetura, a história do edifício/monumento recriado e sua contextualização na história local, sobre educação patrimonial e urbanismo… e tudo isso num processo de produção de um aparentemente simples objeto virtual de alguns poucos megabytes a ser incorporado a um jogo – e imagine envolver uma turma inteira, atribuindo a grupos dela a produção digital de uma reprodução de algum marco arquitetônico/monumental da cidade?

Um mod para o CimCity 4 que cria um ambiente inspirado nas ruas de subúrbios pobres do Brasil (disponível no Simtropolis)
Mod que inclui o Palácio do Planalto no SimCity 4 (disponível no Simtropolis)

Como os jogos modificados podem aprimorar ainda mais o potencial pedagógico pela capacidade de atenderem a objetos mais delineados e específicos, o esforço por conhecer mais sobre o processo do modding vale a pena.