Encontramos aqui e acolá uma tecnologia interessante que pode ser útil ou que tem potencial como ferramenta inovadora, mas certamente o recurso da afetividade é disparadamente o que há de mais avançado para a educação. Nas experiências de aprendizado dos professores certamente estão nelas as conversas, os bons momentos de interação e o carinho por outros colegas de profissão. Ressalto isso para homenagear um dos bons e dos mais inventivos que eu conheci, o professor Heitor Buonafina ou Heitorzinho, como todos gostávamos de chamar.

Ele entendia de tecnologia e era também maker antes que isso virasse moda. Ele andava com ferramentas no carro e sacava uma na hora quando tinha uma ideia para aperfeiçoar o processo de aprendizagem de seus alunos. E daí surgiam roldanas penduradas na parede ou algum treco demonstrativo para suas aulas de física. Sofrendo de terríveis dores do nervo ciático que muitas vezes o impediam de se locomover bem ou de ficar de pé durante as aulas, Heitor foi o primeiro que vi usando uma mesa digitalizadora para projetar seus traços e rabiscos precisos e preciosos para que os alunos não fossem afetados por eventuais e justos afastamentos por licença médica, então ele lançava mão da tecnologia para estar lá na sala de aula apesar das dores e da mobilidade prejudicada.

Ele trabalhava em três turnos e se inventassem mais um, ele trabalharia também. Estava na escola, em seu cursinho e também se virava promovendo eventos, cumprindo as funções de organizador, DJ, decorador e até de chef. Era de uma disposição incrível, mas de vez em quando dava uma cochilada rápida sentado enquanto rolava uma barulheira na sala dos professores. Era divertido, falava um bocado e sempre tinha uma piadinha na ponta da língua.

Topava experimentar projetos inusitados. Num deles trabalhamos juntos e foi para mim uma das melhores experiências pedagógicas. Resolvemos associar as disciplinas de História e Física num projeto que envolvia estudos sobre os armamentos pesados antigos e daí conversávamos e trocávamos material sobre as catapultas, onagros, balestras e trabucos romanos. Resolvemos criar algumas dessas peças em escalas pequenas para testar os princípios físicos e também para ilustrar as aulas de História. Foi pouco, ele sugeriu fazer algo numa escala maior e então teve a ideia de montar um trabuco para demonstrar o funcionamento do artefato e a relação dos pesos e contrapesos gerando a força de impulsão da poderosa arma que destruía muralhas. Providenciamos madeira, corda, polias e improvisamos uma marcenaria na sala de aula e ele teve todo o trabalho de confecção do modelo. O trabuco funcionava tão bem lançando cocos e pedras a uma grande distância que consideramos muito perigoso, mas ele deu um jeito de arremessar bexigas d’água. Fez uma competição de lançamento de bexigas. Que aula de Física!

Este episódio não é só um relato de experiência de um projeto, mas uma demonstração da capacidade inventiva e inovadora de um professor diante do propósito de proporcionar uma educação incrível numa escola pública. E Heitorzinho era desses professores que inspiravam alunos e também seus colegas e nesta condição eu imputo a figuras como ele um papel fundamental no processo de transformação da educação.

E este professor nos deixa em meio a uma pandemia devastadora. Deixa dores, deixa saudades, mas deixa também boas recordações e muito aprendizado para seus incontáveis alunos e vários colegas de profissão.

Registrar e louvar o trabalho de um bom professor é reconhecer que há esperança de uma educação melhor. Lembrar ideias e ações de um inovador é importante para nos mostrar que é possível fazer diferente.

Um grande abraço, Heitorzinho!

Obrigado por tudo!